terça-feira, 7 de julho de 2009

beleza...
voltei (acho)

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Vida Pancada

Resolvi agora que tudo é pancada: sou mais afoito, ando com a boca mais aberta, engulo mais vento.
Troquei meus sapatos por tênis bamba; compro mais balas pra ter nos bolsos.
Resolvi pagar pra ver o que acontece quando a vida está nua.
Quero mais a polpa, o gosto, o caldo. Nem tenho medo de ralar os joelhos na ladeira!
Tenho antenas em vibração, viagens marcadas a toda hora,
resolvi vender o carro, morar na rua e distribuir por aí meu último talão de cheques - todos sem fundo.
Resolvi também ter um amor novo todos os dias: todos os dias ter o êxtase da paixão e o luto do fim.
Troquei os parentes todos por um ou dois familiares que simplesmente seriam amigos se não tivessem nascido na mesma família.
Voltei a acreditar nas pessoas e esqueci o futuro.
Não tenho medo de beijo.
Desde que a vida se tornou pancada, fiquei mais solto das patas.
Tem cor o dia e tem cor a noite, todas diferentes umas das outras.
Os barulhos da rua, os risos ao longe, sirene de ambulância - tudo movimenta vida.
Ô vida pancada! Por que demoraste tanto a aparecer?

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Casual Verão

tudo azuleceu... e desbandou, desbancou, reviveceu.
tudo é dia com noite no meio no meio e vice-versa-versando sobre escombros do passado.
e viver tornou-se o acaso de novo, que bom.
e sou mais livre agora.
nada sobra quando a cabeça domina tudo com liquidez.
e pronto, viver é bom.
bombom, água mineral com gás.
entrada na festa, paquera no facho de sol que bate na calçada.
de um brasil se fazem mil de mim.
alegria.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Feliz Ano Novo

Eu já chorei tanto que não sei mais o que o ano novo pode trazer de novo.
Houve um rapto da minha idéia, minha esperança se esvaiu em pedaços tão pequenos de desgosto que não sei onde foi parar o escombro da viagem programada.
Por que você desistiu, meu amor? Por que você não pensou em mim? Por que seu medo é grande e violento?
Onde foram parar os carinhos das tuas mãos e o sorriso descomprometido? A tua atenção ao meu jeito, o teu zelo pelo meu corpo. Onde tudo isso está?
Tuas angústias me assustam e eu já não sou mais eu. Não pertenço mais ao grande projeto. Minhas lágrimas escorreram tanto que seco minuto a minuto, esperando o desfecho. Tudo azedou e as paisagens que eram lindas agora são fotos coloridas - ficaram mortas na lembrança.
O nó da minha garganta também faz parte desse enredo maldito, cheio de dores e sufoco.
Meu tempo virou. Teu rosto teima em não apagar.
Sofro. Desgasto todas as possibilidades de te ter.
Espero teu grito que não chega.
Feliz ano novo.

sábado, 13 de dezembro de 2008

A Vida de Manuel

Manuel martins maria. Uma taça e um vinho. Uma taça. Um vinho. Taça e vinho. taça, vinho.

eu poderia começar dizendo que ele andou pela rua escura na madrugada fria.
Eu pensei em não fazer novo parágrafo para não perder o escorreito andar da idéia.
Eu poderia dizer que não sei o que dizer simplesmente, mas prefiro dizer.
Porque essa escolha ninguém me tira e por mais que viver seja aceitar a burrice de cada dia, resta ainda o momento de lucidez trazido pela solidão de uma taça de vinho. Manuel maria.
Poderia eu agora terminar o poema para me livrar de uma vez disso tudo, cuspir tudo para fora na tentativa de nunca mais ter nada para dizer, como se tivesse parido um filho, como se nunca mais fosse engravidar.
Essa era a hora de terminar, sempre penso assim. Sempre fica uma angústia desgraçada na goela, um troço entalado, um fim que nunca chega e que sinceramente chegará somente com a morte.
Não, nada de mal do século ou qualquer merda dessas aí. Manuel maria continua tomando vinho.
Enquanto serve mais uma vez sua taça, enquanto bebe e sonha, sabe que tudo o que existe está ali, no soluço da bebedeira.
Bom, é hora de terminar o poema. Que merda, nunca tenho coragem. Viver fora do poema é admitir que o que existe é isso mesmo, é o que está aí. Isso sim é triste: trabalhos e seus chefes; estudos e seus professores; trânsitos, ônibus, asfalto quente de sol do meio-dia. Há algo mais pobre do que a vida do homem?
É um faz-de-conta do caralho - ninguém gosta de nada e todos procuram qualquer ideologia para confortar um anseio que está junto, colado na idéia. E o vinho? Manuel, mais uma taça!
Agora sim, vou terminar. Terminei.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

As Não-Palavras

E agora mais essa de não saber escrever, de esquecer as palavras dentro de um cesto, de não contar a ninguém o que não sei contar mesmo, e tudo o que aparece assim desconstruído em mim, e torpe, dentro de um eu que não sou eu porque não poderia nunca saber o que de fato me torna eu mesmo. Porque quando faço versos e canto alegre os dias mais lisonjeiros de verão, porque quando dôo aos outros algum néctar provindo de minhas mãos, é nesse dia que viajo mais profundamente, é quando eu consigo sentir a desgraça iminente, o fogo perturbador do desejo, a polpa da inquietação que se oferece, madura, para uma crua mordida. Esquecendo as palavras assim, as necessárias "coisas" pra se dizer, os objetos quentes da minha glória, esmoreço em dores que são, sim, eu também. Toda a brincadeira fica sem graça e sem luxo. A harmonia, a sutil beleza dos sentimentos mais fartos fica comprometida diante das não-palavras - aquelas que ficaram vibrando na ponta da língua, aquelas que estavam dançando num redemoinho no pensamento, as palavras doces, as palavras frias, as vesgas, as tortas, as vagas, exóticas & mistas, bêbadas & mortas, fracas, frívolas, as matildes e suzanas que não se tornaram poema. É no dia da ausência que meu sentimento de vida também se transforma em morte. As não-palavras ditas da boca para dentro, cantadas para o fígado, cuspidas para o esôfago. As mordaças vivas, o pano preto que amarra os sentimentos em proeminências de desejo, em insatisfação e culpa. São tantas as vezes em que elas aparecem que chegam a ter vida, usam meus dedos igualzinho às palavras. As não-palavras moram mais do que as palavras, elas existem em todos os momentos, ocupam todos os espaços e chegam a coabitar o mesmo lugar que as palavras. Elas são mais potentes porque se fazem sentir - imperativas, velozes e surpresas. Não são o silêncio nem o medo, porque esses são ditos em palavras. Elas são a essência, a pessoa personalíssima, as não-palavras são tudo o que compõe o ser, à pequena exceção das palavras. Quantas palavras não são ditas? Em quanto de um homem há não-ditos? Pode existir algo além do que não é falado? Não. Negação. Volta ao sim pelo avesso. Transgressão do dizer pelo não-dizer; da risada pela boca fechada, da lágrima pelo olho seco. Dicionário com mil páginas em branco - cheio de sábios conselhos. Vulcão de desnecessidades, roupa quente para um dia quente. Não-palavras - um ode às infinitas vezes que fazem de alguém seu próprio ser. E por mais que tudo acabe e que o mundo seja engolido em tecnologias, elas sempre estarão - fugazes, seguras e vibrantes -, cheias de novidades para não contar.

domingo, 30 de novembro de 2008

O Homem É

Luís e seu filtro de coar café hoje, e seu filtro de coar água amanhã (e hoje).
Que coisa é ver o homem envenenado com o fogão que não liga, com a geladeira e com a pia. Ele dorme porque nada de interessante está para acontecer no final de semana capaz de lhe dar serenidade suprema. Quando tem vontade de vomitar, cuida para ter tempo de chegar ao vaso sanitário - e isso lhe custa horas trancado no banheiro. Luís é uma figura displicente porque não descobriu seus verdadeiros desejos ainda: ele tolhe os sentimentos com uma voracidade de dar dó. Quando escolhe as roupas, pensa em quantas vezes as usou. Luís é pobre, é simples. Luís é um saco. Cabelo lustroso e camiseta dentro da calça. Quanta negação essa pessoa. Um dia ele entrou na sala de aula da faculdade e ficou vermelho só de olhar para o professor sentado. Foi um instante de glória e medo - o silêncio voltado para ele. Pensou que não fosse sobreviver.
No dia em que ocorreu a revolução em seus sentimentos, fazia sol escaldante, vermelho e cheio de raios ultravioletas. O sol despejava caldeiras na calçada a ponto de desintegrar matérias orgânicas. Os galhos de árvores estavam parados e nada do que fosse dito na rua poderia avançar um centímetro sequer, tamanha a pachorra do meio-dia. Ninguém sabe o porquê, e ninguém tirou a saber, que luís nesse calor dezembrino resolveu sair caminhando em passos despretensiosos. Tinha ele e qualquer outra pessoa por aí. Usava uma roupa escura porque nunca soube direito distinguir calor e amor, isto é, sempre esteve à mercê. Natural que qualquer hora algo de fantástico pudesse lhe ocorrer. De fato, andava em pernas que mais estavam adaptadas a apartamentos quadriculados e escadas rolantes. Nem por isso era menos homem, menos viril em sua condição de sapo cibernético. Branco, viscoso, barriga levemente protuberante - que mais faltaria além dos óculos escuros quadrados? Caminhava.
Na esquina escolhida para tudo acontecer, parou numa sombra bastante arrebatadora onde se encontravam outros transeuntes suados e exaustos. Recostou-se na parede, as nádegas molhadas esquentando no concreto, as costas esticadas de tanto suor. Ao seu lado, mariana dormia com olhos negros e pintados de preto. Ela nunca perguntou o que estava acontecendo com ele antes de cair inteira no seu ombro. Assustado, perdido e idiota como sempre, luís afastou-se abruptamente, deixando o corpo cair estatelado nas lajotas da calçada. Quando se deu conta do que havia feito de grave, pensou em fugir e dizer para si mesmo: não tenho nada a ver com isso. Necessariamente, juntou pelos braços aquela pessoa, não sabe se porque tinha vontade ou se por causa das outras pessoas que também faziam isso (talvez pelas duas coisas combinadas). A garota branqueou os lábios e abriu os olhos depois de alguns segundos de água jogada no rosto. Ninguém entendeu o que poderia levar uma pessoa a desmaiar na rua, mas os seres humanos são prestativos porque nada lhes resta senão ajudar os outros. É a condição precária da existência, o fundamento contra o medo de morrer só. Essa pode ser a razão que movia luís a passar a mão molhada no rosto branco de mariana. Será que minha mão está suja? - ainda tinha a capacidade de pensar. Estava mesmo, mas mariana estava desapropriada de senso crítico para perceber. Quando ela abriu os olhos, havia uma neblina em cada um e luís pensou que a moça tivesse catarata. Ele era tosco mesmo, pobrezinho. Tinha medo de doença, medo de olhos, medo de gente. Sentiu o peso dos braços de mariana no seu pescoço, mole de pressão baixa. Só escutou o nome da rua e o número do prédio. Não entendeu bem como teve forças para carregar o corpo por duas quadras, só sabe que era excitante aquele caldo que vinha das coxas roliças e descia pelo seu braço. O cheiro doce do perfume, a boca entreaberta, fragmentos de dentes aparecendo. Um cabelo tão liso e preto, um rosto tão redondo - parecia uma fruta apetitosa, uma sobremesa espalhada pronta pra ser devorada. Ele não pensou com essa clareza mas estava de pau duro. 223, tocou. Enquanto mariana abria os olhos meio atônita mais uma vez, apareceu à porta uma moça quase tão viçosa quanto ela, de olhos esbugalhados. Mariana foi posta no chão, a moça a abraçou, deu-lhe um beijo delicado e agradeceu a luís. De mãos dadas, as duas sumiram no corredor escuro, num par harmônico.
E luís voltou pra casa, verde e pasmo, louco por um banho.